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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

TEOLOGIA DA BACIA E TOALHA

TEXTO: João 13.1-17
INTRODUÇÃO:

·      Na época de Cristo, as pessoas caminhavam por estradas de terra e, pelo fato de usarem sandálias, chegavam aos seus destinos com os pés empoeirados. Por isso, assim que um visitante entrava numa casa, vinha um escravo, caso houvesse algum ali, para lavar-lhe os pés.
·       O que você faria se soubesse que morreria amanhã? O que você falaria para as pessoas que te cercam se soubesse que aquelas seriam suas últimas palavras? Quais seriam seus atos se soubesse que seriam seus últimos gestos? Se você fosse um pregador, qual seria o seu último sermão? Essa era exatamente a condição de Jesus. Diz a Bíblia v.1 que “sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai...”. Sendo Deus e gozando de atributos divinos como a onisciência, Jesus sabia exatamente o que o aguardava ainda aquela noite. Ele sabia que horas depois seria traído, entregue aos principais sacerdotes e abandonado pelos seus discípulos. Por isso, aquelas eram horas preciosas. Com certeza muito havia a ser dito. Muitas palavras a serem proferidas. Muitos conselhos a serem dados. Inúmeras recomendações a serem feitas. Entretanto, naquela noite memorável, Jesus abre mão do discurso e lança mão do exemplo. Ele não fala, ele age. Ele não prega um sermão, ele vive a pregação.

è O episódio narrado em João 13.1-17, quando Jesus lavou os pés dos discípulos, encontra-se no contexto da páscoa. Os dias que antecediam a festa eram de rigorosa purificação, tanto dos corpos quanto das casas (João 11.55; Êx 12.19). Na véspera, os discípulos se puseram à mesa da ceia com o Mestre. Aparentemente, tudo estava certo, mas aqueles homens estavam com os pés sujos. Isto era incoerente com a pureza requerida para a ocasião. Todos poderiam estar adequadamente vestidos, mas os pés estavam sujos. Jesus sabia disso. O Mestre sabe das nossas impurezas, pecados e culpas, por menores que possam parecer. Ele não faz “vista grossa”, como se a sujeira não estivesse lá, mas deseja nossa plena purificação.
·      Os preparativos da ceia já tinham sido providenciados, mas quem lavaria os pés dos presentes? Cada um poderia sentir-se realizado por ter cumprido sua tarefa, mas sempre existe algo que precisa ser feito e ninguém quer fazer.
·      Naquele momento, Jesus poderia ter ensinado uma lição de independência, ordenando que cada discípulo lavasse seus próprios pés. Seria uma alternativa plausível. Entretanto, Cristo não queria incentivar a autossuficiência, o individualismo e o isolamento, mas sim a comunhão. Não é este o ensinamento cristão. Por isso, não existe autobatismo nem ceia individual. O desejo de Deus é que seus filhos vivam em comunhão.
·      Jesus tomou a iniciativa e assumiu a posição de um servo, de um escravo. Ele fez o trabalho que ninguém queria fazer. Ele fez o que nenhum fariseu faria. Jesus estava atento às oportunidades, não de aparecer, mas de servir. Foi ensinada ali uma grande lição de humildade. Não era uma aula teórica, mas um ensinamento pelo exemplo. A humildade é necessária em casa, no trabalho, na escola, na igreja e até mesmo no trânsito. Sem humildade, fica difícil permanecer no casamento ou no emprego. Por esta causa, algumas pessoas estão sempre mudando de lugar. Até para aprender é preciso ser humilde. Também para reconhecer o erro, pedir ajuda, pedir perdão ou mesmo perdoar. Ser humilde não é ser pobre, mas reconhecer em si a simplicidade da condição humana.

TRANSIÇÃO: EXISTEM LIÇÕES A SEREM APRENDIDAS COM A TEOLOGIA DA BACIA.

1.             A TEOLOGIA DA BACIA ME ENSINA A AMAR (v. 1).

·      O texto diz que “tendo Jesus amado os seus, amou-os até o fim”. É um amor sem limites, um amor levado às últimas consequências. O escritor Philip Yancey afirma que Deus se assemelha a um pai cego de amor por seu filho, alguém disposto a dar sua própria vida. É um amor sacrificial.
·      Max Lucado, certa vez, lançou a seguinte pergunta: “Sabe por que Jesus morreu na cruz?” Ele mesmo responde: “Porque Deus não se imaginava passar a eternidade sem você!”. Assim, Jesus transmite aos seus aspirantes ao ministério pastoral que é absolutamente impossível ser pastor sem amar. O amor é uma condição imprescindível para o exercício do ministério.
·      O jovem pastor batista Martin Luther King disse: “Aprendemos a nadar como os peixes; a voar como os pássaros; mas, ainda não aprendemos a amar o próximo”.
W   Outro ponto que merece destaque diz respeito ao amor incondicional de Jesus. Somos amados não pelo que fazemos ou deixamos de fazer. Não é um amor baseado numa relação de troca ou barganha. Não há nada nesse mundo que abale o amor de Jesus. Jesus amou todos, inclusive Judas.
W   Judas era um homem acima de qualquer suspeita. Ao contrário do que se pensa, ela era um homem de extrema respeitabilidade no colégio apostólico. Judas era o único discípulo de Jesus que era da Judéia. Todos os outros eram da Galiléia. Assim, Judas gozava de um status mais elevado, porque os judeus provenientes da Galiléia eram considerados impuros, enquanto os judeus da Judéia eram considerados mais devotos, consagrados e justos. A Galiléia era tida como uma terra imunda, porque estava cheia de gentios. Outro aspecto a ser considerado acerca de Judas Iscariotes diz respeito a posição que ocupava dentre os apóstolos. Ele era o único que tinha um cargo e, por sinal, um cargo de confiança. Ele era o tesoureiro do grupo. O único cargo disponível era ocupado por ele.
W   O texto diz que Jesus lavou os pés de todos os discípulos, inclusive os pés de Judas. Jesus está lavando os pés daquele que, naquela mesma noite, iria traí-lo. Judas era considerado amigo de Jesus. “A traição é um ato que só um amigo pode cometer”. O inimigo não pode trair porque, para haja traição, é preciso que aconteça entre duas pessoas próximas, amigas e que guardam uma relação de confiança. Jesus nunca considerou Judas como seu inimigo. Pelo contrário, Judas fazia parte do seleto grupo de amigos de Jesus, os 12 discípulos.

2.             A TEOLOGIA DA BACIA ME ENSINA A SER HUMILDE (v. 4-5).

W   A Bíblia diz que o primeiro ato de Jesus foi “tirar a sua vestimenta” (v. 4). Por que Jesus se despiu da sua roupa? Porque a roupa diz muito acerca de quem nós somos. Há uma máxima contemporânea que diz “você é aquilo que você veste”. A roupa identifica a posição ou mesmo a função que alguém exerce na sociedade. Através da roupa sabemos, claramente, se a pessoa é rica ou pobre. Se é alguém importante ou uma pessoa simples. Isso se deve porque o vestuário indica status. A roupa é um símbolo de poder. A roupa é um estereótipo que não tem apenas a função de vestir, mas, sobretudo, de caracterizar. A própria vestimenta de Jesus era uma veste utilizada tipicamente por rabinos e mestres da Lei. Era uma roupa valiosa, por isso, após a sua crucificação os guardas lançaram sortes para decidir sobre quem ficaria com suas vestes (Lc 23:34).
W   Por que Jesus fez isso? É interessante notar que esse evento de lavar os pés é narrado apenas pelo evangelista João. Entretanto, a última ceia é narrada pelos outros evangelistas. O evangelista Lucas, por exemplo, narra um evento muito intrigante que sucedeu durante a última ceia. O capítulo 22 de Lucas é um texto paralelo ao capítulo 13 do Evangelho de João. Portanto, os eventos que acontecem em Lucas 22 são os mesmos que acontecem em João 13. Assim sendo, Lucas narra que durante a ceia os discípulos começaram a debater entre si qual deles seria o maior (Lc 22:24). Alguns comentaristas dizem que foi exatamente no meio dessa discussão que Jesus se levanta e se despoja de sua túnica, ensinando aos seus discípulos o verdadeiro sentido de grandeza no Reino de Deus.
W   Para ser grande no Reino de Deus, o cristão deve crescer para baixo. É um crescimento que nos leva a pequenez. No Reino de Deus ninguém sobe degraus rumo à ascensão. A ascensão é a diminuição. 
W   O texto afirma que Jesus tomou uma toalha, deitou água na bacia e passou a lavar os pés dos discípulos. Como pode se observar, Jesus assume uma postura de um escravo. Lembremo-nos ainda que Jesus é Deus, e, como tal, encontra-se despido de sua glória, envolto em uma toalha, de joelhos, lavando os pés de pecadores. Agostinho dizia que a qualidade indispensável para um verdadeiro cristão é a humildade. Jesus ensina aos seus seminaristas que o exercício do ministério pastoral necessita de pessoas humildes. A palavra humildade é tapeinós (grego), de onde se origina a palavra tapete. Ou seja, a raiz da palavra humildade sugere alguém que está disposto a ser pisado e humilhado. É bom recordar que, anos antes desse evento, o profeta João Batista havia dito que ele não era digno nem mesmo de desatar as sandálias de Jesus (Mc 1:7). No entanto, Jesus, o Deus encarnado, ajoelha-se diante de seus discípulos e, não apenas desata as correias de suas sandálias, mas, ainda, lava os seus pés.

3.             A TEOLOGIA DA BACIA ME ENSINA A LIÇÃO DO SERVIÇO (v. 14-16).

·      Jesus mostra aos seus seminaristas que ser pastor é, antes de tudo, ser um servo. Ele conclama os seus apóstolos a se despirem da indumentária eclesiástica e assumirem a forma de um serviçal. Como filhos de Deus, somos chamados a frutificar.
·      O grande pregador e avivalista do século XIX, Dwight L. Moddy, afirmou com muita propriedade: “Ore, como se tudo dependesse de Deus; trabalhe, como se tudo dependesse de você!”. O próprio Moody, ainda, afirmou: “Ser cristão não exige muito de uma pessoa, exige tudo”. O SENHOR nos chama ao serviço e às boas obras.
Ø Conta-se que, certa vez, um jovem viu o árduo trabalho feito pela Madre Tereza de Calcutá junto aos leprosos. Um trabalho árduo, difícil e sem nenhum prestígio nem reconhecimento. Ao presenciar o trabalho da devota freira, ele exclamou: “Eu não faria esse trabalho nem por um milhão de dólares!”. A freira respondeu: “Eu também não!”. Ele perguntou: “Então, por que a senhora o faz?” Madre Tereza, prontamente, lhe respondeu: “Por amor!”.
·      É curioso saber que o último sermão do grande expositor bíblico John Stott, em 17 de julho de 2007, na Inglaterra, teve o seguinte tema “Tornando-nos mais semelhantes a Cristo”. E no decorrer de sua mensagem, um dos textos examinado foi João13. Assim Jonh Stott discorre: “Quero convidá-los a subir comigo ao cenáculo onde Jesus passou sua última noite com os discípulos. ‘Tirou a vestimenta de cima e, tomando uma toalha, cingiu-se com ela. Depois, deitou água na bacia e passou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido. Ao terminar, retornou ao seu lugar e disse-lhes: Ora, se eu, sendo o SENHOR e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo’. Note-se a palavra – ‘para que, como eu vos fiz, façais vós também’.
·      Ensinar através do exemplo não é a melhor maneira de influenciar as pessoas e inculcar fortemente os princípios ensinados. É a única.
·      Jesus utilizou diversas formas de ensino para treinar seus discípulos: pregação, parábolas, estudos, atos. Entretanto, aqui ele se utiliza do melhor e mais eficaz método de ensino: o exemplo. Jesus não nos pediu nada daquilo que ele mesmo não tenha feito.
·      O serviço da Igreja tem como paradigma o próprio ministério servil de seu Mestre. Assim, naquela noite de quinta-feira, antes de se despedir dos discípulos, Jesus traz a eles lições preciosas. “Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (v. 15). A atitude de Jesus é apenas um exemplo. Cabe a nós perpetuarmos os seus ensinamentos.

CONCLUSÃO:
·      O Cristianismo da Bacia e da Toalha me ensina que o outro sempre vem primeiro. É abrir mão daquilo que se quer para benefício do próximo. É dar mais do que receber, é perdoar sempre. É, em alguns momentos, sofrer até prejuízos por amor ao outro. Se não, veja o exemplo do próprio Cristo. Aniquilando-se a si mesmo, assumiu a forma de servo, sendo obediente até a morte de Cruz. Pensando em mim antes Dele mesmo. Sofrendo por mim aquilo que eu deveria sofrer.

Servir a Cristo é entender que abdicar meus desejos e vontades são, muitas das vezes, ossos do ofício. É ter uma vida dedicada a outros ainda que, daqui a algum tempo, você nem seja lembrado, não receba nada, seja esquecido ou até mesmo criticado.

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