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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

ASPECTOS MESSIÂNICOS DE JOSÉ


Gênesis 50.18-21

I. Tempo Histórico do Personagem

O período mais provável para José é o tempo da dinastia dos faraós hicsos, cerca da 1720-1570 a.C.

Estes "soberanos de terras estrangeiras" (é o que significa em egípcio o nome hicsos), eram de origem semita. Obtiveram proeminência no Baixo Egito e depois, talvez por um repentino golpe de estado, conquistaram o trono egípcio, formando as dinastias XV e XVI dos hicsos que durou mais ou menos 150 anos, quando foram expulsos pelos reis tebanos. Esta é a razão porque nos tempos de Moisés "se levantou novo rei sobre o Egito, que não conhecera a José" (Ex 1.8).

Os faraós de origem semita assumiram a posição completa e o estilo da realeza tradicional egípcia. A princípio os hicsos empregaram na administração do governo oficiais egípcios do regime antigo. Porém, conforme o tempo foi passando, oficiais semitas naturalizados egípcios foram nomeados para altos postos administrativos. É neste contexto que José se encaixa perfeitamente. Tal como tantos outros, José foi um escravo semita a serviço de uma família egípcia importante: a família de Potifar, comandante da guarda.

A corte real mostrava-se minuciosamente egípcia em questões de etiqueta (cf Gn 41.14; 43.32) e, no entanto, o semita José foi imediatamente nomeado para um alto ofício. A mistura peculiar e imediata de elementos egípcios e semitas, espalhadas na narrativa de José, adaptam-se perfeitamente ao período dos hicsos. Além do mais, somente entre os conquistadores hicsos um asiático teria possibilidade de se elevar ao mais alto posto do Estado (cf Gn 46.34).


III. Estrutura do Contexto

1. Contexto Remoto: A Infância de José

O que está acontecendo em Gênesis 50.18-21? Por que os irmãos de José se aproximaram dele com tanto medo, implorando por suas vidas e suplicando que fossem seus escravos?

A chave para uma compreensão adequada do ocorrido em Gênesis 50.18-21 está, a priori, no relato da infância de José em Gênesis 37.

O amor de Jacó pelo filho de sua velhice despertou inveja e aborrecimento nos demais, a ponto de não poderem mais "falar com ele (José) pacificamente" (v4). O relacionamento entre os irmãos ficou mais complicado ainda quando Jacó resolveu demonstrar sua predileção por José ao fazer-lhe "uma túnica talar de mangas compridas". A túnica(1.) do caçula de Jacó era ostentosa (2.) ("de várias cores", cf VRC) e provocante.

Os sonhos reais de José estavam associados à roupa que ganhara (Gn 37.3,7,9); portanto, a destruição da túnica pelos seus irmãos representava o fim do sonhador e de sua realeza (Gn 37.31-33).

O que Jacó pretendia exatamente com este tipo de presente é difícil saber. Não podia dar os plenos direitos de primogenitura a José, pois esses Jacó concederia a Judá (cf Gn 49.8-12). É possível que alguma explicação possa ser encontrada no fato de que José era o primeiro filho de sua esposa favorita, Raquel. No desfecho final da história de José sabemos que, pela vontade divina, Jacó antecipara, embora inconscientemente, a posição elevada que seu filho teria futuramente no Egito.

Mais tarde, agora conscientemente, reconhecendo a realeza de José o proclamaria "príncipe" entre seus irmãos (Gn 49.26). A ordem no acontecimento dos fatos é progressiva. Jacó amava mais a José. Jacó demonstrou seu amor pelo filho predileto dando-lhe uma túnica real (Gn 37.3). Em seguida José tem dois sonhos reais (vv5-9). Parece que tudo, naquela ocasião, contribuía para o aumento da inveja de seus irmãos (v11a), fato ignorado por José.

Jacó desconfiou que sonhos daquela natureza, que engrandeciam sobremaneira o sonhador, não eram comuns. "Guardava este negócio no seu coração" (v11b). É possível que a questão da eleição divina, tão marcante na vida de Jacó (Gn 25.23,30-33;27), passasse naquele instante por sua mente. Diferente de seus filhos, Jacó aprendera a admitir a mão de Deus nos fatos e em Seu direito de escolha entre os seres humanos.

É impressionante como os sonhos passam a ter importância essencial na vida de José. Por causa de um sonho José foi lançado em uma cova (V24) e vendido (v28). Por causa de um sonho foi libertado do cárcere (Gn 41.14) e exaltado (Gn 41.42,43).

No acontecimento de Gênesis 50.18-21, os irmãos de José sentem o temor conseqüente do crime que cometeram, vendendo José por vinte siclos de prata aos ismaelitas (Gn 37.28), isto é, pelo preço de um escravo no período patriarcal. E o que passava pela cabeça de seus irmãos era: o único meio de consertarem o mal praticado seria fazer o que fizeram com ele, a saber, tornarem-se escravos. E escravos de José!

2. Contexto Próximo: A Morte de Jacó

Se por um lado os irmãos de José já estavam amedrontados pelo mal que haviam feito a ele, de outro lado tiveram a situação piorada (no pensamento deles) com a morte do patriarca Jacó. Foi sem dúvida um fator preocupante. Ao verem Jacó expirar (Gn 49.33) e José se atirar ao pescoço dele, chorando e o beijando (Gn 50.1), puderam ver que o amor do irmão pelo pai era tão forte quanto antes e que a separação provocada entre os dois por meio de traição e mentira resultaria numa vingança sem precedentes.

Com a morte de Jacó os irmãos de José se sentiram desamparados, pois agora estavam sem aquele que poderia livrá-los de qualquer mal intento de José. "Vendo então os irmãos de José que seu pai já estava morto, disseram: Porventura nos aborrecerá José, e nos pagará certamente todo o mal que lhe fizemos" (Gn 50.15). Podemos imaginar que o retorno de Canaã para o Egito não deve ter sido nada fácil. Com exceção de Benjamim, acredito que o choro dos irmãos de José não era mais por Jacó (Gn 50.10), mas por eles mesmos.

E agora, com o pai enterrado num lugar distante, parecia ser mais fácil resolver uma questão que seus irmãos achavam que ainda estava pendente. Por isso enviaram um representante a fim de amenizar a situação (v16)."Teu pai mandou, antes de sua morte" (v16). Por que não disseram "nosso pai"? É porque a esta altura não se achavam dignos de serem chamados filhos de Jacó e muito menos irmãos de José. Por outro lado, acreditamos que a ordem de perdão dada por Jacó não foi autêntica. Como o engano era uma agravante na família de Jacó, é provável que aqui (v16) não tenha sido diferente. O medo os levou a mentir.

Mas não podemos negar a autenticidade do sentimento deles quando o mensageiro diz: "agora pois rogamos-te que perdoes a transgressão dos servos do Deus de teu pai" (v17, VRC). A ocasião era oportuna para apelarem à memória de Jacó. Contudo, a partícula hebraica NA' expressa ênfase no apelo para perdão do pecado, isto é, "rogamos-te do mais profundo coração". E isto é ainda comprovado pela unânime deliberação de se tornarem escravos de José (v18). Eles estavam verdadeiramente arrependidos, embora não houvessem compreendido ainda a dimensão do perdão de José.

Não dá para saber com precisão o porque do choro de José, após ouvir o pedido de seus irmãos (v17). Seria por que a narração comovida sobre o medo e a desconfiança de seus irmãos o emocionara? Poderia ser. Seria a menção do nome de Jacó, trazendo à sua mente a lembrança do pai? Pode ser também. Porém, a resposta mais provável, na minha opinião, é que José não chorou porque seus irmãos estavam arrependidos do que fizeram com ele, mas apesar de não se lembrarem de sua prova de amor em outra ocasião (Gn 45.5,8,9), ainda assim eram objetos de sua compaixão e perdão.

IV. Teologia

Aspectos Messiânicos de José

Nas igrejas evangélicas prevalece o consenso geral de que José foi um tipo de Cristo. É na pessoa de José, no Egito, que nós encontramos o cumprimento da promessa de Deus a Abraão que, por sua vez, alcançaria seu clímax em Cristo: "Em ti serão benditas todas as famílias da terra" (Gn 12.3).

Acreditamos que pelo menos dois aspectos messiânicos estão claros em Gênesis 50.18-21: 1) O aspecto real e 2) O aspecto redentivo. Encontramos estes dois aspectos (ora mais, ora menos enfatizados) em Gênesis 37, 39-50. Mas por questão de propósito e objetividade limitaremos o assunto a Gênesis 50.18-21.

1. O aspecto real da pessoa de José (vv18,19)

No versículo 18 temos o reconhecimento da realeza de José por parte de seus irmãos. Como tipo de Cristo, José agora prefigurava não mais o estado de humilhação, mas de exaltação do Messias.

Sem dúvida alguma, aqui em Gn 50.18 os súditos (os irmãos de José) tiveram uma compreensão mais elevada de "servidão" do que a de Gênesis 44.9,33. Isto ficou claro pela prontidão imediata: "Eis-nos aqui por teus escravos" (v18). A maioria das versões em português traduz o substantivo abadim por "servos". Contudo, não é a melhor tradução. A idéia de escravidão do verso 18 tem a mesma força de Gn 44.9: "Aquele dos teus servos, com quem for achado (um copo de prata), morra; e nós ainda seremos escravos do meu senhor" (itálico meu). A única diferença nesses dois textos (Gn 44.9 e 50.18) é que no primeiro trata-se de uma hipótese. Os irmãos de José estavam certos que não furtaram nada dele (Gn 44.8). No segundo texto (Gn 50.18) trata-se de uma realidade. Eles se ofereceram como escravos do rei José e não se acharam dignos de serem comprados (ou vendidos) nem mesmo por vinte siclos de prata.

Agora seus irmãos reconheciam a verdadeira realeza de José. Outrora, antes que José se desse a conhecer a eles, não o reverenciaram dentro de uma perspectiva teológica (Gn 42.6) como José via os acontecimentos (Gn 42.9). Mas agora lembravam-se dos sonhos de José (Gn 37.7,9) e que a resposta à pergunta: "Reinarás, com efeito, sobre nós?" (Gn 37.8) era afirmativa. Lembraram-se também da túnica real e principalmente do mal que lhe fizeram quando procuraram tirar-lhe a realeza com a destruição da túnica (Gn 37.31)(3.) e vendendo-o como escravo (Gn 37.28).

Apesar de sua realeza, José reconhece que é um mortal e os adverte: "Não temais (a mim) porque porventura estou eu em lugar de Deus?" (v19). Quer dizer, "porventura eu tenho direito de julgá-los?"(4.). Lembremos que esta é uma característica tipicamente messiânica (Jo 8.50; Fp 2.6,7; I Pe 2.23). José deixa com Deus todo acerto do erro dos irmãos, antecipando, desse modo, o ensino do Novo Testamento (Rm 12.19; I Ts 5.15; I Pe 4.19). Da mesma maneira que Jesus Cristo, José estava plenamente ciente que era submisso. Não a Faraó, mas a Deus.

2. O aspecto redentivo da pessoa de José (vv20,21)

Este segundo aspecto está subordinado ao primeiro.

Nos versículos 20 e 21 de Gênesis 50 encontramos a mais bela declaração do entendimento que José tinha da posição em que Deus o colocara. José via além do alcance.

E porque José via o propósito divino em meio à ruindade de seus irmãos, ele os perdoou. Não os isentou da culpa ("Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim..." – VRA), porém, vê o bem de Deus mais digno de crédito do que a maldade deles. No verso 20 José reafirma o que já havia prometido a eles (Gn 45.5,7,8).

O aspecto redentivo de José tipificou a missão de Jesus no mundo. Conservar "muita gente em vida" (v20) também foi o objetivo da obra redentora de Cristo (cf Mt 1.21; 26.28).

Não sabemos exatamente quando José tomou ciência do propósito divino em usá-lo como redentor. É possível que a ascensão como primeiro ministro ou grão-vizir de Faraó fosse o ponto de partida, pois o nome egípcio Zafnate-Panéa significa "o salvador do mundo" (cf Jo 4.42; I Jo 4.14). "E todas as terras vinham ao Egito, para comprar de José; porquanto a fome prevaleceu em todas as terras" (Gn 41.57 – VRC). Em certo sentido José foi "o pão da vida" do mundo de então.

No verso 21 temos o que podemos chamar de "uma atitude verdadeiramente cristã". José não somente paga o mal com o perdão, mas com uma demonstração prática de afeto. Se por um lado seus irmãos não deveriam temê-lo porque todos, inclusive José, estavam sob o senhorio de Deus (v19), por outro lado não deveriam temer porque todo mundo estava sob a verdadeira proteção e cuidado de Zafnate-Panéa, o salvador do mundo. E José promete: "Eu mesmo vos sustentarei de verdade a vós e a vossos filhos", enfatiza o texto hebraico.(5.) José repete e confirma a eles neste versículo (21) a promessa que fez originalmente quando os convidou a virem ao Egito (Gn 45.11,18,19).

A palavra "sustentarei" (v21) não significa que a fome ainda prevalecia. Quando Jacó chegou no Egito faltavam cinco anos de fome (Gn 45.11). O patriarca estava com 130 anos de idade (Gn 47.9) e morreu com 147 anos (Gn 47.28); portanto, a fome não mais existia há 12 anos. E aqui (v21) temos um detalhe importante do aspecto redentivo da pessoa de José que aponta diretamente para Jesus: Cristo não só nos salvou, mas nos mantém e nos sustenta dia após dia com a Sua providência. Ele está conosco sempre (Mt 28.2) e intercede por nós (Hb 7.25).

A expressão: "Eu mesmo vos sustentarei de verdade a vós e a vossos filhos", sugere que como estrangeiros no Egito, os filhos de Israel poderiam dispor de uma pessoa influente como José para guardar seus interesses e representá-los diante de Faraó. Jesus Cristo, sendo um dos nossos, por assim dizer, também é o nosso excelentíssimo representante diante de Deus (I Tm 2.5; I Jo 2.1).

As palavras "não temais" é a expressão do refrigério que acalma os corações atribulados. Jesus a usou várias vezes para tranqüilizar seus discípulos e outras pessoas (Veja, por exemplo, Mt 10.28; 14.27; Mc 5.36; Lc 12.32).

"Assim os consolou, e falou segundo o coração deles" (v21).

O Dr. Gerard Van Groningen, em seu livro Messianic Revelation in the Old Testament pp. 166,7, resumiu muito bem os dois aspectos messiânicos da pessoa de José (realeza e redenção). Diz ele:

José foi um verdadeiro tipo messiânico. Ele foi considerado real, recebeu uma posição real e cumpriu uma tarefa real. Como uma pessoa régia, ele livrou, protegeu e enriqueceu a semente de Abraão e Isaque. Ele funcionou, portanto, como um redentor e provedor físico, social, moral e espiritual. (...). Deus preparou José, e por meio de José o soberano Senhor realizou atos salvíficos dentro do contexto da história do mundo. E ao preparar José e realizar atos de salvação por meio de José, o Senhor falou profeticamente enquanto preparava a cena para a salvação mais plena, mais completa que Jesus Cristo traria. Essa salvação trazida pelo Cristo real foi também o que em última instância validou a obra redentiva de José, cumprida por uma pessoa real, tomada de entre a semente para funcionar em favor da semente.

Conclusão

Chegamos ao término desse estudo e esperamos ter alcançado o objetivo de mostrar que a passagem bíblica de Gênesis 50.18-21 encerra uma das mais profundas lições tipicamente messiânicas do Antigo Testamento.

Os aspectos messiânicos de realeza e redenção de José prefiguram Jesus Cristo que, como Rei dos reis e Senhor dos senhores (I Tm 6.15) é o Salvador do mundo (Jo 4.42; I Jo 4.14). A realeza é a base da redenção de povos e reinos. E José, como pessoa real, salvou a povos e reinos inteiros do colapso da fome e da miséria. José foi o "pão da vida" do mundo antigo; Jesus Cristo é o nosso "pão da vida" (Jo 6.48) e de todo aquele que nEle crê. José os alimentou materialmente; Jesus nos alimenta espiritualmente e também nos sustenta com o pão nosso de cada dia.

José, cujo nome significa aquele que faz aumentar foi, na verdade, o instrumento de Deus para preservar e aumentar o Seu povo. Jesus, cujo nome significa Salvador, "salvará o seu povo dos pecados deles" (Mt 1.21). De tudo que podemos aprender de José o que fica são suas lições práticas para a vida cristã. Considerando que José viveu cerca de 1600 anos antes de Cristo, ele antecipou para nós o verdadeiro sentido do adjetivo que qualifica alguém como cristão ou semelhante a Cristo.

José, em uma atitude verdadeiramente cristã, soube deixar com Deus a ofensa de seus irmãos (v19) porque aprendeu a ver o propósito divino na maldade dos mesmos (v20); e além de tudo isto, perdoou não apenas com palavras, mas em demonstração prática de perdão (v21). Em outras palavras, José praticara o que Cristo ensinaria futuramente (Mt 18.35): perdoou "do coração (VRC) ou "do íntimo" (VRA) a seus irmãos.

Eis aí um típico cristão no Antigo Testamento, com o qual o cristão do novo milênio deveria aprender e a ele imitar.

(1.) As túnicas comuns, nos tempos bíblicos, eram sem mangas e desciam até os joelhos. A de José descia até o calcanhar e cobria as mãos.
(2.) Um traje semelhante ao que José ganhou de seu pai é denominado vestimenta real em 2 Sm 13.18.
(3.) Certamente a túnica foi despedaçada (cf Gn 37.33).
(4.) Para outras possíveis interpretações, veja J.F. Exell, The Pulpit Commentary, (Grand Rapids, Michigan, Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1980, Vol. I), p. 539.
(5.) Derek Kidner observa corretamente que "José promete algo mais pessoal do que filantropia" (Gênesis: Introdução e Comentário, São Paulo, Vida Nova/Mundo Cristão, 1988, p. 207).

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